Se você é como eu, provavelmente nunca se encaixou bem em uma caixa. As pessoas tentam te rotular, e você procura por onde deveria se encaixar. É assim que funciona na cultura ocidental — identificamos as pessoas por suas “caixas”. Eu sou um ESTJ no teste de Myers Briggs, tecnólogo sênior em design de engenharia, tenho um diploma técnico em teologia e mestrado em apologética. Sou australiano, casado com uma americana, pai de três crianças, fundador de uma ONG estrangeira, gestor de uma equipe multicultural em outro país, falo três idiomas (quatro se contar o “australiano”), sou filho de Deus e já fui vizinho de muçulmanos, budistas e comunistas.
É com essa bagagem que sinto dificuldade de me encaixar na caixa da apologética — pelo menos da forma como alguns a definem.
Um amigo me disse recentemente que apologética é “dar uma defesa (ou explicação) racional para um ponto da fé cristã.” Concordo, mas também gosto da definição do Oxford Dictionary: “um argumento ou texto racional justificando algo, geralmente uma teoria ou doutrina religiosa.”
No Ocidente, a apologética é vista de forma predominantemente acadêmica e intelectual. Esse é o padrão para uma “defesa racional”, e, de fato, é uma expressão essencial e estratégica da nossa fé. Por isso vemos pessoas como William Lane Craig debatendo com críticos da fé cristã em universidades renomadas, e ministérios como Ratio Christi atuando em campi universitários ao redor do mundo. Também é bom ver esse movimento apologético chegando às igrejas locais.
Mesmo assim, muitos dos argumentos continuam sendo acadêmicos e voltados a quem tem ao menos um ensino superior. Isso não significa que os apologistas não saibam ou não queiram dialogar com pessoas menos instruídas. Eu amo o mundo acadêmico, mas sei que na Austrália, por exemplo, apenas 20% da minha turma de formandos foi para a universidade. Isso é normal lá, ao contrário dos EUA.
Aqui está o problema: eu diria que cerca de 1/3 das pessoas comuns no Ocidente não sabem o que fazer com os argumentos apresentados por apologistas cristãos, sejam eles superelaborados ou simplórios. Na Ásia — onde atuo — cerca de 90% dos argumentos apologéticos formatados no estilo ocidental causam pouco impacto no cidadão comum. Os ocidentais se surpreenderiam com a rapidez com que lógica e razão são descartadas na vida cotidiana de muitos países asiáticos em desenvolvimento.
Há alguns anos, eu liderava um ministério masculino na Austrália e muitos homens me perguntavam como responder às perguntas de colegas de trabalho ou familiares. Raramente as dúvidas eram sobre o problema do mal, argumentos cosmológicos ou a origem do universo. Em geral, envolviam questões de cosmovisão: aborto, leis, eutanásia, etc.
Como meus amigos não entendiam como cosmovisões moldam nossos valores, rapidamente se confundiam ao tentar discutir esses assuntos emocionais em contextos delicados. É nesse ponto — onde “a teoria encontra a realidade” — que espero causar impacto com a apologética: usando uma linguagem e uma lente cultural que as pessoas possam compreender. Apresentar um argumento que não toca o coração de quem ouve é uma oportunidade desperdiçada. Meu objetivo é gerar impacto, não vencer um debate. Como diz Ravi Zacharias: “No engajamento cristão, o objetivo é conquistar a pessoa de outra cosmovisão — não destruí-la.”
Prefiro o conceito de “argumento racional que justifica algo” ao de “defesa racional”. O “algo” que procuro justificar é a cosmovisão bíblica. Todo ser humano lida com cosmovisões conflitantes (por isso o título do meu blog pessoal: Quando Cosmovisões Colidem). O que tento fazer com a apologética é defender a visão bíblica frente às inúmeras cosmovisões culturais que nos cercam.
Quer a pessoa more nos EUA, Austrália, Europa ou Ásia, ela terá que escolher qual cosmovisão seguir — e será necessário saber defendê-la. A maioria das pessoas nem percebe que está envolvida em uma batalha metafísica por sua lealdade. Para o cristão, o chamado é defender a cosmovisão bíblica contra sua cosmovisão cultural natural.
Isso é o que eu chamo de apologética cultural prática, enraizada no dia a dia. Aprecio o campo acadêmico — é por isso que tenho um mestrado e planejo fazer doutorado. Mas meu desejo é adaptar a defesa da fé para que ela possa alcançar pessoas em diferentes contextos culturais ao redor do mundo.
Apologética não é apenas sobre refutar o ateísmo ou outras religiões. É também sobre defender o cristianismo contra influências culturais. E isso será cada vez mais necessário em nosso quintal, à medida que a cultura oriental ganha espaço no Ocidente. Através da escrita e da tecnologia, espero ajudar meus amigos ao redor do mundo a defenderem a cosmovisão bíblica em suas conversas cotidianas.
Ravi Zacharias, em “Aprendendo a Pensar Criticamente”, disse:
“Acabo de voltar de regiões do mundo onde tive que tomar muito cuidado com o que e como dizia, pois 90% da audiência à minha frente não simpatizava com minha fé. Estava analisando criticamente minha própria cosmovisão e mostrando por que ela era coerente e viável. Para o cristão hoje — especialmente os jovens — é vital aprender não apenas como defender o que acreditamos, mas fazer isso com gentileza e respeito.”
Essa é a realidade diária para muitos de nós. E é nesse ambiente que posso explorar o verdadeiro significado da apologética e como ela pode ser aplicada em contextos semelhantes ao redor do mundo.
Se eu tivesse que escolher uma “caixa”, talvez eu me colocasse na de Apologista Cultural — seja lá o que isso signifique. Mas, na verdade, eu preferiria abandonar qualquer rótulo e ser apenas “o cara que usa suas experiências dadas por Deus para levar a esperança de Cristo às pessoas por meio de uma defesa visível, vivida, gentil e adequada da cosmovisão bíblica diante das cosmovisões culturais concorrentes.”
raduzido para o portugues pela equipe do Seitas.com.br
postado originalmente no “The Christian Apologetics Alliance” e escrito por Kit Walker

[…] Para conhecer mais sobre o assunto:O que é a Caixa da Apologética Cultural? […]